Sexta-feira, 4 de Novembro de 2005

discurso de estado

ah, que futuro e que passado.
que lastimável o fim do caminho,
a teia que te enreda.
e que engraçado,
vê o contentamento de todos os que te elegeram inimigo,
olha,
olha como se interessam pelo sucesso económico do futuro.
repara como têm futuro.
repara na rede de relações que estabelecem entre eles.
aquilo tem uma lógica.
o triunfo económico.
vê como estabelecem contactos só para isso.
lembras-te daquelas palavras feias que te disseram?
não és ambicioso,
não tás feito para triunfar numa economia de mercado.
não queres.
e é por isso que te digo,
que essas palavras não eram feias.
eram palavras deste mundo.
sabes, este mundo que tu detestas é o único mundo existente.
estava cá antes de ti.
e essa é a razão porque te refugias cada vez mais
nesse reduto feito do isolamento que te isola.
é um deserto que não te dará nada.
vê como nem sequer tens já dinheiro para beber um café
ou comprar tabaco de enrolar.
é por isso que te digo,
imagina que sou teu pai.
ou mais que isso,
imagina que sou o estado.
vou dar-te um pequeno conselho,
não fumes.
vai trabalhar.
já pagaste os teus impostos?
estás desempregado?
a culpa é tua.
ah! estás a estudar.
ainda não pagaste as propinas?
não?
o teu pai que as pague.
tem o empréstimo da casa e do carro?
ah! já morreu?
que pena.
tu julgas que o mundo não tem obstáculos?
tem,
e tu não tens o direito de os ignorar como tens feito.
tu não tens os direitos que estão consagrados na lei fundamental,
porque são apenas palavras que apenas indicam intenções,
direcções e caminhos que não te levam a lado nenhum.
já te disse, arranja algo que fazer.
vai prá tropa,
fica em casa,
mas não te revoltes.
não arranjes mais problemas.
ajuda a tua mãe.
não saias à noite.
não te metas na droga.
porta-te bem.
não andes por aí a partir tudo.
não te preocupes.
olha para os mais ricos,
a ordem estabelecida,
empresarial.
já olhaste?
e não viste que és um número?
não te esqueças.
lembra-te daquela lição de física,
as coisas não podem voltar para trás.
não questiones o mundo acerca de coisas impossíveis.
além disso, tu és apenas uma coisa pequena,
um ponto minúsculo no universo,
insignificante,
um grão de areia.
não tens importância nenhuma.
mantem-te calmo.
não te manifestes.
lembra-te que podes votar.
age civicamente,
dentro dos parâmetros que não estabeleceste nem controlas.
acredita no sistema,
de quatro em quatro anos ele funciona.
pode ser que tenhas sorte.
por exemplo, agora.
não acredites em rupturas,
pode ser que fiques pior.
olha aquele neokantiano americano, john rowles.
lembras-te?
este é um mundo de egoístas.
não tens saída.
tu não conseguirias,
apesar da tua força.
não gostes de aventuras.
sê um social democrata.
tem calma,
não faças como os jovens franceses.
joga no totoloto, pode ser que te saia.
vai a fátima, não te incompatibilises com a fé.
acredita, acredita sempre.
pode ser que Deus exista,
porque tu sabes que o estado existe.
há milagres.
cristo foi capaz de matar centenas de porcos de uma só vez.
ninguém mais conseguiu tal façanha.
não, não, estou enganado.
os americanos também conseguem.
olha os japoneses, como aprenderam.
eu sei que podes não concordar.
mas não te manifestes nunca.
o mundo pode ficar chateado com a tua não concordância.
não procures pelo sentido.
sê uma pessoa normal.
olha para todos aqueles que triunfaram com pequenas mentiras.
têm família, são felizes.
optaram, afinal de contas.
tu podes dizer que tiveram medo,
mas o que é um facto é que se integraram.
não critiques a falta de coragem, porque ela é a coragem.
sim, experimenta.
muda de lugar e olha bem para ti.
estás a ficar velho.
o cabelo vai começando a cair, um a um.
não dês exemplos.
os exemplos que dás já morreram.
o tempo passa,
passará por ti também.
não sejas ideaslista, a filosofia está em crise.
lembra-te daquele músico do Porto,
37 anos...
filho de professores primários,
deixou de cantar aquela música que tu gostas.
o FMI aterrou mesmo no aeroporto da Portela.
é a vida.
há que aterrar,
descer à terra.
as tuas asas, essas sim, nunca existiram.
não queiras ficar na história impossível e irreconhecível do teu mundo.
porque no teu mundo não vive ninguém nem há dinheiro.
vê o exemplo dado pelos suíços.
são importantes,
apesar de viverem daquilo que roubam.
já ninguém quer saber a proveniência das coisas.
não existem causas.
repara, basta este exemplo para te provar a crise do teu mundo.
a utopia de que tanto falas não passa além do montante do teu salário.
não queiras salvar nem socorrer o mundo,
deixa isso para os bombeiros, para a polícia.
o mundo está pronto e acabado.
bebe antes um copo de vinho depois das tuas refeições diárias.
dá graças para que sejam duas em vez de uma.
não te questiones se de repente as duas se tranformarem em nenhuma.
não faças greve.
planifica o teu futuro.
tu és bom a arranjar consensos contigo mesmo.
muda.
sê de plástico.
substitui os teus camaradas por amigos.
reza todos os dias por eles,
vai à missa
arranja um método,
aquele método de gostar de tudo,
de não fazer perguntas.
não ignores aquilo que em ti te ultrapassa.
há uma distância irresistível entre ti e as coisas que te rodeiam,
e isso faz com que não possamos mais falar a mesma linguagem se não mudares.
e é por isso também que eu te digo agora derradeiramente:
olha, estou com pressa...

fernando

publicado por ... às 19:58
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3 comentários:
De Anónimo a 10 de Janeiro de 2006 às 10:17
tens uma forma de escrever poemas muito bonita.
parabéns
albertocostaalberto
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(mailto:)


De Anónimo a 4 de Dezembro de 2005 às 21:32
Que dizes sobre a entrevista dada pelo doutor Luzio Vaz ao Diário de Coimbra, onde acusava as Repúblicas de "antros de droga e prostituição há 15 anos" (idos anos 80). Independentemente da verdade, é normal que hoje vocês não têm culpa daquilo que antes de vocês outros fizeram. Mas parece-me que a entrevista visou cortar-vos as asas numa eventual nova invasão à abertura solene. um beijo paulacpaula c
</a>
(mailto:)


De Mª Albertina a 18 de Julho de 2006 às 11:24
Tá porreiraço este post.Ainda bem que estavas com pressa:-)


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