Segunda-feira, 25 de Abril de 2005

POEMAS para ABRIL

I
vieira da silva.jpg
(vieira da silva)

Depois do adeus,
continuei a ouvir-te atentamente,
tudo o que disseste
e tudo o que não disseste
e não quero ouvir nem ver mais.
Não quero dizer-te,
nada.
Já não sei a quem dizer que amo as ideias iniciais,
que preferi pensar sozinho na poesia que já morreu,
que tu me prometeste num poema para ti.
Um poema sem medo e sem rima.
E digo,
apanhaste-me a dormir todo este tempo.

Não quero escrever coisas parecidas com as tuas.
Não sou a vingança fria nem morna.
Já não acredito sequer nas tuas palavras,
flores de plástico vermelhas,
que tu nem sequer sabes como empunhar agora.
Há que ter uma certa dignidade,
mesmo quando caímos ou nos sentimos enganados
não deixamos de ser quem somos.

A tua poesia era melhor quando coçavas a cabeça, acho eu.
Este talvez também não seja o meu melhor poema,
para tu guardares na pasta dos teus trofeus.
Mas não direi como tu amor
que não amas,
nem as palavras morrerão na minha boca como na tua
boca de chumbo,
pele lisa,
corpo duro de plástico.
Mas ficas bem na bandeira
lugar que tu não medes,
não sabes medir.
Talvez por isso sintas falta do cálculo,
da economia.
Ah! esquecia-me dos teus olhos.
São buracos opacos,
não dizem nada.
Procuram apenas o fetiche da mentira repartida por dois.
Mas não faz mal.
Os buracos tapam-se.
O da esquerda tapa-se com o da direita.

Recuso-me a dizer o teu nome,
a pronunciar a palavra,
o dia.
Quando nasceste libertaste a palavra.
Mas ela de uma forma secreta tornou-se corrupta,
quase com ciência.
Mas essa ciência nunca conseguirá matar a utopia,
Por isso, calculaste mal o grau da minha dependência,
enganaste-te.
Porque eu já vi coisas terríveis e feias acontecerem antes daquele dia.
A minha memória impede-me de querer voltar a ver a palavra aprisionada.
A liberdade.
Porque é sempre assim,
depois do adeus.
Não sei o que dizer acerca disto,
de mim e de ti,
31 anos depois.
E isso não é maravilhoso.

Para quê saber que não morri,
se isso não interessa?
Tenho medo de não ter medo,
mas arriscar até a sua própria felicidade é tudo.
Ser é preferível a estar aí para ser acariciado.
O mundo sobrevive sem isso e sem o choro e o carinho que tu precisas.
Não será mais importante saber porque morrem tantas crianças
nos braços tristes de quem chora?
Não será isso mais importante que os teus dentes novos?
Para tu sorrires melhor,
não precisas de dentes novos nem de sorrir para seres tu.
E as mãos, já olhaste bem para as tuas mãos?
Nada lhes tocou e elas parece que não tocaram em nada.
Sim, porque as manhãs não se limitam a um abrir de janelas
com autocolantes revolucionários a caírem
e a réplica da comida guardada para dois na estante vazia.
Que esperas?

Quando não se gosta sabe-se,
o mundo não consegue ser seduzido assim,
com o perfume inimputável que tu gostas.
Um quarto de hora não chega para mudar algo que tenha sentido.
Mas pode chegar para ti.
O absinto pode fazer-te ganhar a coragem que tu confundiste sempre
com egoísmo.
Mas só com cobardia não se consegue sequer mudar de cuecas, sabes.
Não mintas porque acerca das noites nada sabemos.
Nem mostres a bomba de ar pousada no tijolo para tu chorares
quando me vez lá.
O ar que toda a gente merece é sagrado.


II
Porque as palavras são ainda palavras.
Se as abres para dissipar o cheiro diário do prazer da noite e da manhã
o problema é teu, não das palavras.
Eu sei que as palavras mentem sem ninguém lhes pedir.
São sinais, tal como o teu quisto nas costas,
ficou lá a marca.
Mas é melhor saber que ainda não morreste.
Porque podes ainda mudar.
Eu sei que é difícil.
Não é fácil acordar contente.
É um facto que não é proíbido não construir nada para os outros.
Basta seduzir todos os que se encontram à tua direita,
enquanto os outros constróem casas para todos,
e ficam cansados.
Esse é aliás o momento que tu calculas e geres
o tempo da vingança gratuita.
A altura ideal e segura,
é aquela em que tu pensas de forma que possas dizer a alguém que eu morri.
Que eu sou isto e isto está morto para ti.
Enganaste-te porque tu não sabes nada acerca de flores verdadeiras,
Porque tu não tens o carácter dos sobreviventes.
É preferível servir o pelotão de fuzilamento,
parecem em maior número.
Mas trata-se de um pelotão onde ninguém consegue acertar no alvo.
Extraordinário, não é?
Sabias que ninguém merece morrer?
É simples.
Ninguém morre na vingança de ninguém.
Por isso, eu próprio não te deixarei morrer.
mesmo que agora sejas de plástico,
quero dizer-te que ainda resisto e que a força visita quem tem coragem.
O mundo verdadeiro é só feito de coragem.
Não sei mais nada.
Apenas me restam palavras sem sentido agora.

Afinal o futuro foi vencido pelo prazer
e pelo egoísmo do cálculo que fizeste.
O teu hedonismo que se diz e expressa rapidamente
com as palavras e os gestos que tu apenas usas,
como equações.
O mundo não se resolve projectando nem transferindo nada.
Porque também assim se domesticam os cães.

Sim, gosto das tuas mamas.
Sei que isso para ti é importante.
Podiam ser maiores.
Mas não é isso que te quero dizer.


III
Quero-te dizer que tu és uma palavra
onde eu caí e esperei.
Ainda que a palavra não se tornasse concreta
e não me procurasse.
E compreendo que em vão te achei aí onde nunca estiveste.
Não sei sequer se existes.
Não sei se tu própria sabes que existes.
Mas se não existes que te procures num futuro verdadeiro
e te aches maravilhosa,
em ti mesma.
Mas não na palavra que os polícias sabem dizer melhor,
segurança.
Porque não é seguro o salto urgente e arriscado que é preciso dar,
porque não é necessário para ti.
Eu imagino toda a ciência dos gatos nessa palavra,
o salto redondo e completo.
Mas tu calculas o seu adiamento.
E o tempo passa e esqueces os pássaros
e o céu.
E calculas mais uma vez
um beijo frio e um abraço.
Um prato servido ainda quente está cansado e fica frio,
está à minha espera.
Mas não morre tão depressa quem habita Saturno.
E os teus olhos olham na calada e também esperam.
Tudo espera pacientemente.
E tudo te impede o movimento perfeito,
para o futuro verdadeiro.


IV
É a beleza que já não está no mundo que habitas.
Foi toda vomitada de uma forma também perfeita.
O perfume e o creme que usas nunca conseguiram perceber o teu problema
e juntar-te para que tu pudesses dizer finalmente a palavra
eu sou eu ainda.
E eu sou racional porque sinto o frio da tua solidão
e não posso mostrar-te,
porque há um mundo maior que nós
onde só a utopia consegue entrar.
Maior ainda que Deus e Freud juntos foi aquilo que prometeste.
Não vamos falar desse mundo porque não há lá nada.
Nem a verdade precisa de apóstolos ou profetas.
A verdade não precisa de ninguém.
Só a mentira é feita desse plástico com que tu te revestiste.
É evidente que sei ainda distinguir a esquerda da direita,
eu sei coisas terríveis.
E não acredito que sejamos todos assim neste país,
neuróticos ou psicóticos.
Saber isso não devia dar emprego a ninguém.

Eu sei que podia ser mais alto.
E até ser alguém fora daqui.
Mas nasci quando o homem foi à lua.
Fiquei espantado com isso.
Como foi possível?
Mas não consegui crescer mais porque é preciso estar programado.
Não consegui ficar maluco.
Posso ainda contar até dez
e plantar árvores, fazer um jardim, plantar cravos, etc.
Não só imaginar,
eu sei construir a beleza.
Ver como surgem as flores para te oferecer quando fazes anos.
Olha, não posso dizer-te mais nada.
Posso dizer-te que mesmo os cães precisam de carinho.
E já estive cansado nos teus braços,
e tu nunca compreendeste que a força tem limites.
Tal como o amor não é uma banana descascada para tu comeres,
nem depende de um estágio profissional bem remunerado.
O mundo é bem maior que nós e que tu.
A minha cabeça não está preparada para mentir nos olhos.

O problema é que não sei nada,
nem como amar duas coisas.
Tu e a tua sombra são coisas opostas.
Por isso paro por aqui.
E tu tens todo o direito de tentar fugir para longe de ti.
E eu quero já que tu fujas do medo facilmente,
Costuma-se arranjar um cão para isso,
que nos receba sempre com a língua de fora.

Agora é melhor ficar só,
e reconcilia-me com a verdade do futuro,
e com todos os que nos quiseram matar.
Mesmo aqueles que me quiseram matar só a mim merecem ar.
Quero ser só eu para já,
no medo.
Como Saturno.
E sinto que uma mudança se opera no medo
e não tenho medo do medo.
Há uma certa dignidade também nisso.
Mas não é isso que te quero dizer.
Quero-te dizer que estou com pressa,
vou comprar um cravo para tu pores na lapela.
E quero dizer que se um dia for rico também te empresto vinte e cinco euros.

V
Nunca mais foste a mesma depois de teres perdido a flor que te dei naquele dia,
novamente.
Tens 31 anos, eu sei.
Descobri-o por associação de ideias.
Juntei os paus, como se costuma dizer,
e tu já nem sabes esperar.
O que se passa é que naquele dia tinha ido à minha terra com um amigo.
Cheguei atrasado e achei estranho.
Ainda me sinto estranho a mim próprio.
É que ainda não tinha juntado os paus.
Depois percebi que não vale a pena acreditar mais.
Que nada existiu nesse dia.
E nunca existiu.
Mesmo as flores já não têm o perfume que nunca tiveram.

É por isso que te pergunto muitas vezes,
Quem és tu e quem sou eu?
E vejo que as palavras não chegam sequer para ti
para te dizer quem sou e quem és.
É que, não sou de papel, é impossível.
Não consigo dizer aqui quem sou eu nem quem és tu.
Sobrevivo a esse escândalo do diagnóstico dos meus sintomas e dos teus.
Eu sou eu e tu és tu.
Mesmo que combinadas de todas as formas do mundo
as minhas palavras e as tuas devolvem-me apenas o silêncio.
E fujo assustado das margens desse rio sem nome.
A água está parada e fria.

VI
Outra coisa, os teus discursos anuais,
porque não choras todas as palavras bonitas,
que disseste só para agradar?
Elas desperdiçaram-se na tua boca?
Guarda-as para ti, só para ti,
em vez de as lançares todas nesse pantano da mentira,
como pedras num embrulho de plástico.
Já foram flores,
E já foram cravos verdadeiros.
Eu sei, talvez.
E o perfume... não consigo esquecer o perfume que perderam em cada dia.
Que passem os dias.
Eu espero apenas que passem.
Por isso, não quero mais celebrar o dia em que nasceste,
nem dizer nada acerca da flor que te dei,
que tu foste.
Ela murcha e morre nos discursos bonitos que todos te fazem e que tu fazes,
para passares mais uma noite e um dia sossegado,
no teu buraco.
Assim, eu só reconheço apenas a verdade dos discursos que caem
no silêncio,
porque as palavras mentem até a si próprias.

Porque não desistes?
Sim, porque não desistes?
Afinal, o cerco das metáforas mortas que tu embrulhas nas palavras
está completo.
O teu dia foi sendo ultrajado, mesmo pelas palavras que nunca se disseram,
que vêm do futuro e do passado.
É normal, dizes tu.
E o futuro.... , mataste-o com os teus jogos de palavras.
Sim, porque elas se podem dizer agora,
E podemos até jogar com elas,
mas as palavras já não dizem nada porque se escondem atrás de si próprias.
E já nem sequer são de papel,
o papel recusa-as.
Elas agora já não precisam de permissão para entrarem no mundo, sabias.
Mas tu insistes em escondê-las atrás dos seus significados.
Nada é pior que uma metáfora mal feita.
Sabes, tu não nasceste para traíres as palavras todas que dizes.
O mundo não está louco.
Nem tu podes arrastar silenciosamente as palavras atrás de ti e de mim,
porque isso pode levar-nos à loucura.

Quando olho para ti vejo que os teus olhos não olham para lado nenhum.
Não brilham,
são opacos,
Escondem as tais palavras com jogos e senhas.
E é por isso que não percebes nada acerca das flores verdadeiras,
que não são de plástico.
Eu sei que mesmo o amor que me deste era desse plástico.
Não cheirava sequer a nada.
E é assim que eu nem me lembro já muito bem
como se desenrola a história do amor verdadeiro,
nem quero recordar o cheiro que nunca teve, sabes.
Sei apenas a primeira palavra e a última,
porque sei que antes de mais essa história começa e acaba,
com uma palavra verdadeira.

É por isso que gosto de estar aqui sem ti agora.
Estar só não quer dizer nada,
não te assustes,
se o caminho é o caminho verdadeiro.
A verdade que tu não gostas, sabes,
não é isto e aquilo, ela não é perversa.
E quero acreditar que pelo menos não tenho já a tal sombra atrás de mim,
das flores de plástico,
que me enlouquece.
Não é a luz,
mas a sombra também daquele teu olhar sem luz nenhuma,
que me persegue.
Um buraco que se constrói meticulosamente sem eu saber,
que agora sou eu o buraco.


VII
Sabes o que é uma pessoa?
Sabes?
E não ter ninguém a quem dizer e confiar isto?
É como estar casado com o nosso próprio silêncio,
que não conseguimos dizer.
É assim esse silêncio desesperado que nos acompanha,
adormece e acorda connosco na cama.
Vive mais um dia,
e outro,
e outro...
Sempre um dia que destrói mais um dia.
Um dia que destrói o dia em que nasceste,
hora a hora, minuto a minuto.
Um dia que me destrói a mim,
sobretudo quando estou cansado,
preciso de ajuda,
e tu te ausentas.
E se adoeço,
e tu não me visitas?

E é por isso que atrás de mim está já o presente todo e o futuro,
o meu tempo.
As horas e os minutos que o constituem,
são o silêncio de ti e de mim que me acompanha,
a tua indiferença,
E eu tenho o teu cravo na lapela e não entendo porquê.
É um presente onde eu já não estou.
Sim, estou apenas a despedir-me.
E despedir-me é uma tristeza, sabes.
É uma etapa que se cumpre.
Mais uma.
Quase posso dizer que a missão está cumprida,
e falhamos.
Não voltarei mais a empunhar a flor que fizeste nascer,
que te dei depois naquele dia,
a flor que tu foste.
Se calhar um dia vou olhar para ti e não ver nada,
ou vou recomeçar a ver.
Se calhar.
Mas talvez nunca entendas o que te quis dizer.
Por isso, mesmo aí talvez não tenha tempo de te explicar
o que me passou pela cabeça.


VIII
11.jpg
(S/A)

Eu pensava que a flor que nós cuidávamos não era de plástico,
que era verdadeira.
É por isso que tudo isto é uma doença enorme,
que se repete todos os anos,
cumprindo-se sempre da mesma forma.
O que destrói lentamente.
Escolheste o momento,
o dia,
para ficares com as flores todas para ti
e os louros e os aplausos.
Mas há quem morra ainda pelo infinito,
e não precise de aplausos.
Que louros?
Que buscas e nunca encontras?
Aqui ou ali não há nada assim.
Trata-se de um caminho.
Já te disse.
Sei que essa força ainda existe em mim,
de buscar o caminho,
com a coragem toda que me resta e que há no mundo.
E sinto que a mentira não conseguiu cavar um buraco verdadeiro,
porque não tem a certeza de nada.
Não conseguirá porque em mim essa palavra não tem sentido.
Sabes, Não sou capaz de suportar mais a tua incapacidade intrínseca de me perceberes,
Porque eu sou capaz de olhar a morte nos olhos,
e eu sei que não desviarei o olhar por falta de coragem.
Mesmo que saiba antecipadamente que essa batalha está perdida,
que estarei sozinho nela.
Mesmo assim, não tenho o direito de desistir.
Porque nós, às vezes, vencemos a morte certa.
Basta olhá-la nos olhos e não saber mentir-lhe.
Porque há palavras mágicas,
que resistem a sair de todos os dicionários do mundo,
as palavras ditas entre camaradas,
a verdade.
Outra vez a palavra,
desculpa,
que já não te sei dizer outra coisa.
Sim, a verdade pode ficar apenas como um apelo da liberdade que nasceu naquele dia
que tu não entendes como sobrevive.
Não é preciso trabalhares muito para sentires,
tenta, é preciso apenas tentar ser autenticamente livre
dizer a verdade sem o medo.
É este o segredo desse dia.
E desse apelo, no futuro, ninguém saberá, nenhum de nós,
Porque é difícil travar um processo destes.
Simplesmente porque tentam destruir a nossa memória toda.
E muita gente continua a trabalhar neste momento para isso, sabes.
Tudo se vai compor, tu vais ver.
E aí não haverá nada disto em que tu te tornaste,
flor de plástico.


IX
serguima.gif
(sérgio guimarães)

Por isso, lembras-te daquela flor,
plantada no beiral do telhado da torre,
mesmo ao lado da nossa casa?
Lembras-te?
verdadeira,
autêntica.
Desculpa, outra vez.
Essa flor autêntica estava isolada,
sempre esteve.
Aquela flor que só nós dois sabíamos.
Era linda.
A forma como ela viveu naquele Verão sem água.
E nós olhávamos e não percebíamos.
Há flores que não precisam de alimento.

Estava ali porquê?
Não porque fica bonito uma flor na beira do telhado,
ou porque uma flor pode existir em todo o lado.
Nem mesmo porque as flores são flores.
Estava ali só porque nós estávamos ali.
Lembras-te?
Havia esperança.
Tu tinhas medo que a beira do telhado caísse.
Que nos magoássemos.
Mas acreditavas sempre que não,
que a flor morresse.
Eu também acreditei que não.
Mas essa flor morreu, sem que o telhado caísse.
Tu disseste que deixaste de acreditar.
Bastava que um deixasse de acreditar.
Mesmo que o telhado caísse ela permaneceria lá,
se acreditássemos.
Ela era capaz.
Sabes porquê?
Porque era o nosso olhar.
Mas tu fugiste,
enquanto eu olhava aquela flor,
todos os dias.
Sabes onde está essa flor agora?
Não está já aqui.
resta a memória da pergunta por ti
e todos os dias a tua resposta,
estou aqui.

Sabes que nunca esqueci
que espero ainda
que a flor renasça?
Espero outra vez como foi a liberdade
de te ver e de me ver
no interior de liberdade que me deste.
E fico triste de te ver agora fria e longe,
e de me ver longe dos teus olhos de água,
com a felicidade que a água do rio das memórias e das lembranças reflecte
com o escândalo da luz da manhã.
Não me tenta somente a memória da paz do sol dos teus seios
e a tua boca agarrada à minha língua, a mim.
Tenta-me querer pensar mais na tua possibilidade,
querer cantar o futuro numa carta do passado
remeter a carta para o futuro
que construí já moribundo.

É só a tua repetição que me falta,
o teu nariz que eu gostei de olhar
nas nossas conversas longas e únicas.
E os teus olhos que me chamavam para beijar
os teus olhos.
E eu caí, enfim, rotundamente na tua subtil e doce fuga,
imaginando o nosso medo
e o nosso amor magnífico.
E sei como nos perdemos
e como se perdeu a tua calma,
a minha calma.
Na dança da noite.

Espero calando a dificuldade,
que o dia passe,
que passe o dia seguinte
nem que escreva contra ti com todas as palavras,
a criança inconcebível que me tornei,
a minha dor e o amor todo que ela consome.
Porque me debruço
na tua doçura omissa,
quando tu me procuras para te procurares também?
Escrevo, e arrisco à minha volta o meu sentido e o teu,
para não fugirmos assim do terreno vazio que eu escrevo.
Escrevo para não morreres na minha ausência.
Não a forma do vazio da carne,
ou a carne.
É todo o teu desaparecimento,
a flor,
e dentro de ti a flor que eu deixei de ver
quando acendo a luz,
não és tu
não é nada.

X
Não é o facto da situação ser complicada de explicar e de perceber.
É o facto de tu nem sequer quereres falar comigo depois desse dia.
De qualquer coisa.
Baixas a cabeça,
ficas embaraçada.
foges.
Sentes-te mal.
Queres esquecer aquele dia,
até o dia em que nasceste.
É grave.
Fico triste.
Parece que queres apagar tudo, como se apaga um ficheiro informático.
Não me queres ver.
É a pior coisa.
Já te disse que se fosses verdadeira gostava de te encontrar,
poder falar contigo sem que tu fujas.
Imagina que passava por ti agora e convidava-te a beber um café
ou uma cerveja em qualquer sítio perto de ti.
Tu nem respondias,
ou dizias não.
Ou mesmo se nos encontrássemos num encontro fortuito, baixarias a cabeça.
Agora baixas a cabeça.
Deu-te para isso.
Parece que nem me vês.
Há algum tempo, tu sabes.
Isto não tem futuro é simples,
se tu não mudares,
se não fizeres um esforço.
Quero que percebas.
É simples.

E peço desculpa.
Sim, peço desculpa,
para que tudo fique claro.
É que as palavras podem não ser bem interpretadas.
Pode acontecer,
E o que é mais razoável,
é que não saiba dizer precisamente aquilo que quero dizer.
Mas quanto a isso não há nada a fazer.
Daí, e desde já, as devidas desculpas, mais uma vez.
Digo isto porque mesmo assim preferia falar-te.
Dizer-te, por exemplo, quanto o trabalho cansa.
Mais o trabalho que existe ainda por fazer.
Mas tu queres que não te diga nada,
que fique calado.
Mas há coisas que gostava de explicar.
Uma vaca sem princípios, eis o que eu não sou.
Há uma certa dignidade nesta profissão de ter princípios, sabes.
Há alguma dignidade no seu cheiro.
Posso falar um pouco desse cheiro.
Lembras-te do cheiro dos princípios?
É certo que deve incomodar
lembrar.
Mas peço desculpa também por isso.
Já ninguém se lembra,
nenhum de nós.
Sabes que há quem não se lembre de não ser perseguido pela memória?
Devia ser possível esquecer.
As pessoas deviam ter o direito de esquecer o que quisessem.
Basta olhar para elas, devia ser possível.
Mas essa deve ser a marca do humano, essa impossibilidade.
Não direi uma palavra acerca do cheiro terrível dos princípios e das regras.
Estamos na União Europeia, o lixo deve ser separado,
E as pessoas sabem,
plástico de um lado, papel do outro, vidro noutro.
Lixo bem separado.
O cheiro da pobreza que acompanha a pobreza
é difícil de compreender.

XI
E tu sentes-te encurralada,
horrível e feia
porque choras.
Porque trocas tudo,
porque queres esquecer,
e porque precisas de carinho.
É da importância de te sentires
parte de um plano
maior que tu
para voltares
manietada
ao mundo que mudou já vezes sem conta
para ti.
Sim, o mundo que tu e eu mudamos
e tu nunca soubeste
manter
vivo.
Antes negá-lo nos braços de uma criança demagoga e triunfante.
E arrependes-te
do jogo
da estratégia
da condenação sumária
e do pontapé
que deste com força em tudo.
Preferes ressuscitar
os mortos que já morreram
e que querem voltar a viver.
É isso que te põe ainda mais pequena,
e que te mata.
Mesmo as conversas
à tua volta
ferem-te antes demais nada a ti.
Já estás a sentir.
Sim, quando ouves a história triunfante da criança hipócrita
que tudo o que queria era ser expulsa do seu mundo
e do lugar adulto que a recolheu criança.
É a história da criança que sonha ainda voltar a sonhar,
e voltar ao lugar adulto
quando for adulto.
É a história da criança hipócrita que se gaba de poder ser ainda criança
e se ri como se riem os parvos
e porque tem direito ao mundo,
anterior ao dia em que nasceste.
Mas nada mais interessa no mundo?
É impossível.
Tu dizes que já não podes voltar ao lugar de onde te roubaram,
de onde tu fugistes do presente e do futuro
para o passado,
antes de nasceres.
O lugar onde não te sentes
parte daquilo de que fazes parte.
E é por isso que nem sequer olhas
como no passado olhavas.
E começas a sentir
Vergonha,
embaraço.
E tudo isto porque a história do mundo
não passa de uma história do encobrimento da verdade.


XII
É por isso que antes de contar a história daquele que se recusa,
devido à sua insignificância, a pronunciar a palavra,
é melhor ouvir os pássaros e sentir o aroma das manhãs de primavera
onde tu não choras.
Sim porque os pássaros também têm algo para nos dizer.
Para te dizer.
As suas opiniões a respeito das coisas que nos rodeiam, por exemplo.
Pode pensar-se que o testemunho dos pássaros não é confiável,
por serem pássaros.
Por não terem uma profissão mais digna que voar,
ou até por não te interessarem os pássaros,
o que eles dizem
antes de acordares triste e chorares.

Mas tudo é ou resulta de uma escolha
e a escolha, seja ela qual for,
resulta sempre da liberdade
imensa que é voar.
E a voz e o voo dos pássaros terão sempre que ser respeitados.
O meu respeito é pelo respeitável voo
dos pássaros que não pedem respeito
porque não sabem pedir.
Querem apenas que os deixem voar,
Aqui e ali.
uma expressão que se ouve muito.

Quanto à verdade ela mesma,
a verdade da existência dos pássaros
não se pode dizer que ela exista,
não arrisco tal juízo,
simplesmente ela é difícil.
A parvoíce é uma coisa insondável,
como a incerteza,
como tudo.
Mas também ela deve ter os seus limites.

XIII
Sendo assim, aí vai algo acerca do teu e do meu mundo.
O mundo é diverso,
como dizia um amigo que já não vejo há muito tempo.
Não sei porquê.
Sabes, eu também não sei porquê
mas tenho uma saudade incrível do mundo verdadeiro.
É o tempo.
Deve ser o tempo que passou.
Não penso que sejamos todos parvos, por não sabermos porquê.
Antes pelo contrário.
Mesmo que não existissem parvos tudo estaria na mesma.
Por estas bandas é assim.
O dia continuaria frio e ventoso,
e continuaria a chover,
como agora.
No entanto, apesar de tudo,
das nuvens e da chuva,
do teu choro logo pela manhã
e do sol que teima em não voltar,
tudo está inexplicavelmente calmo.
Pode ver-se toda a calma do mundo naquele homem que adormece na sanita,
ou nos cães magros e cansados que se deitam debaixo da quietude das árvores todas.
E mesmo nos velhos que se procuram nas montras
e nas notícias calmas dos jornais antigos.
Nada inquieta ou quer inquietar,
é por isso que tudo obedece a esta quietude inexplicável,
nem uma só folha se mexe,
nem uma só folha cai.
Nem sequer uma folha caduca cai.
Nem as putas suadas encostadas nas esquinas das ruas se mexem para falarem com os clientes
e consigo próprias.
Nem sequer as ervas mais frágeis e quase invisíveis se mexem com o vento.
Nem o cheiro dos princípios mostra alguma actividade.
As gentes daqui dizem que é na quietude que se pode ver todo o sentido do mundo.
Mas nos prados nem uma só vaca se mexe, nem para a frente nem para trás.
Estão cansadas e têm fome,
e não se mexem.
E eu não espero por ti,
que mudes
apesar do que sinto.

Sim, apenas se vê o teu choro
e o cheiro a princípios em forma de nuvem
inundando as tuas noites,
culminando o pesadelo de mais uma noite e um dia,
dia após dia,
até quase solidificar na saturação do escuro
e da saudade do dia claro e dos pássaros
que já não existem,
o seu voo e na sua voz.
E por isso que nada tem lógica
e nada acontece nas noites escuras
e nas manhãs em que choras.
Mas eu gosto mais de falar dos pássaros
que também já desapareceram.

XIV
Não se pense que a minha referência é pois a eficácia dos pássaros,
nem a objectividade do seu voo. Nada disso.
É a beleza e o mistério do voo dos pássaros.
Aqui nunca ninguém ganhou uma taça por saber isso.
A minha referência é essa,
o prazer desse acontecimento,
o nosso prazer e a nossa beleza no interior desse acontecimento,
é o acontecimento em nós,
é o desejo por si só,
de voar,
de ser livre,
ou as sensações do prazer e da partilha do prazer, de voar
e da utopia realizada.
Não a felicidade de uma criança hipócrita debruçada sobre o seu sonho.
Falo apenas da confusão da liberdade dos pássaros.
O segredo dessa liberdade.
O voo,
a magia.

Mas em nome de todas as conquistas da idade-média e moderna,
ninguém acredita que o voo dos pássaros é assim
o que é.
Quem acredita?
Sempre as mesmas pessoas, lindas e feias,
que não acreditam
em todas as épocas.
Os que olham vagamente apenas para si quando olham
vagamente através das montras as notícias boas dos jornais antigos
ou as garrafas cheias nos expositores dos cafés.
E nunca acreditaram.
E olham entre si com olhares cúmplices.
Não olham para os pássaros nem para ti quando tu eras diferente,
São os olhares vazios que se resignam a olharem apenas,
à espera que tu chegues,
enquanto tu esperas o primeiro autocarro.
E tu corres como uma máquina
apavorada pela rua,
à tua procura,
como se fugisses
quando entras no vazio do olhar que olha apenas.


XV
sanpayo.gif
(Sanpayo)

Mas sabes que passam perto de mim de cigarro na boca apenas os poetas?
São os últimos.
São os poetas que ficam
para depois de morrerem
Estas coisas sem beleza nenhuma
que já se disseram até hoje não lhe interessa.
Os poetas que ficam para serem lembrados em leituras apressadas,
porque não se acredita já em ninguém
nem nos poetas,
nem naquilo que nos acontece agora.
Não pode acontecer nada.
Nem a vinda das flores e dos pássaros na primavera.

Bem, já ouvimos muitas histórias de acontecimentos
e é altura de pensarmos seriamente
no choro das tuas manhãs.
Falta pouco tempo.
E sabes que toda a gente se devia meter no escuro
para pensar melhor na importância do sol,
dos dias e das manhãs,
das flores e dos pássaros,
Até na eficácia e na liberdade
do voo dos pássaros.


XVI
É de manhã e chove.
E de repente eu lembro-me e pergunto-me novamente,
porque choras?
E eu espero debaixo de uma tenda de circo a resposta.
E escrevo.
Espero que a chuva passe
e que passe o teu choro.
Que tu acordes para as manhãs como acordam as crianças verdadeiras.
Felizes.
E os dias verdadeiros,
tu vais ver que nascem diferentes e claros,
sem se embaraçarem, contradizer ou negar.
E que as flores e os pássaros voltam.
E que os dias não se escondem debaixo do tapete
para nada,
como se os dias não tivessem gente dentro
e ninguém notasse.
Ou os dias acabassem
e o seu público não aparecesse,
para testemunhar a autenticidade do dia.
A tua autenticidade,
que tu tentas esquecer.
E não dizes porque chove lá fora
e porque choras
os dias que se transformam em noites.
A tua luta silenciosa
com a tua consciência das coisas.

É por isso que eu não te encontro em lado nenhum.
Agora.
Olho e não te encontro.
E já procurei mesmo nas pedras da calçada.
No meio das pedras.
Até nos jardins que desapareceram,
no lugar das flores que já não existem,
e encima das árvores mortas
onde costumavam ficar os pássaros,
Procurei em todo o lado,
e não consegui encontrar-te no dia claro que eu sinto.
Procuro, procuro,
e não te encontro sequer nas palavras
o que tinha para te dizer.
É difícil a arte de tocar-te e de te esquecer
sem a tua presença.


XVII
Penso pois em ti,
porque choras nas manhãs
quando acordas
e te lembras de ti
e de tudo
e de todos os princípios das coisas
e do mundo verdadeiro
que foi o teu
que eras tu
da forma que tu foste.
Mesmo quando o vazio toma conta de ti
e dos dias sem as manhãs que tu contas,
que tu teimas em não encontrar,
não desistas.
E eu previ também encontrar-te
no teu lugar,
dentro de ti,
o agora dos pássaros e das manhãs que eles cantam.
É por isso que eu te pergunto,
porque choras quando acordas de manhã
se o vento e a chuva são necessários para que as flores cresçam?
os dias mais cinzentos não podem fazer-nos desistir.
É verdade que o sol transforma tudo,
os dias escuros ficam dias claros.
É quando aparece a ciência toda dos pássaros.

Por isso deixa lá,
se o sol agora se esconde atrás das manhãs
quando tu choras nos dias que também choram.
Como hoje.
Agora.
Por mais que chores.
Amanhã será outro dia, mais um dia.
Mas, sabes, mesmo as lágrimas que tu choras são necessárias ao mundo.
Para que o mundo tenha mais sentido,
tu podes dizer que afinal agora és mais não sei o quê.
Que não és nenhum monstro.
Que és tu.
E isso basta?


XVIII
Olha quero dizer-te mais uma coisa,
É tudo.
Não é nada.
É qualquer coisa que não sei explicar.
Qualquer coisa muito densa
e frenética,
que me perturba.
Sinto tudo à minha volta.
Mesmo palavras.
Vejo palavras no ar,
no sitio do oxigénio.
Respiro-as,
como-as,
vomito-as.
Tudo porque também eu não consigo explicar, nada.
É difícil dizer-te que me afasto cada vez mais
de ti
e que estou mais perto
de mim.
Que prefiro o longe
onde já não comunicamos
Porque já não sabemos a hora
nos olhos um do outro
nem estamos perto
dentro da palavra longe.
Porque tudo é adiamento
da tua palavra
verdadeira.
Desculpa.
silva.gif
(vieira da silva)

fernando


publicado por ... às 22:40
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6 comentários:
De Anónimo a 3 de Agosto de 2005 às 14:40
És uma pessoa com uma sensibilidade extraordinária, és o porta-estandarte de uma geração; adorei ler este teu belo poema, e relê-lo fará parte da minha agenda nos próximos dias; obrigado seco.celso
</a>
(mailto:celsobaia@yahoo.com)


De Anónimo a 11 de Junho de 2005 às 12:26
é muito raro nos dias de hoje aparecer alguém assim, que escreva assim, de um modo tão poderoso. pereces uma luz no meio da escuridão em que tudo se tornou.
daniela daniela
</a>
(mailto:danielaaa@yahoo.com)


De Anónimo a 4 de Junho de 2005 às 02:56
o que faz um utópico no meio desta merda toda, seco?
fredericafrederica
</a>
(mailto:frederica_pc@yahoo.com)


De Anónimo a 25 de Maio de 2005 às 18:25
não há palavras para dizer mais nada além disto acerca daquilo que sentimos hoje pela democracia e da verdade, sempre adiadas. um grande poema.

JCjoão cortes
</a>
(mailto:joao_cortes@sapo.pt)


De Anónimo a 25 de Maio de 2005 às 17:59
onde vais buscar tanta inspiração para dizer coisas tão acertadas acerca da situação em que isto se encontra?

um beijo grande

joanajoana
(http://ml)
(mailto:joana_75@gmail.com)


De Anónimo a 25 de Maio de 2005 às 17:53
muito à frente este poema. o 25 de abril tornou-se de plástico com o decorrer dos anos.

beijinhos
manuela
manuela
(http://xl)
(mailto:manuela_lm@sapo.pt)


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