Sábado, 5 de Março de 2005

PS: um partido de alterne político

Finalmente apareceu Sócrates, agora sem Vitorino. Talvez porque este será candidato a presidente da república. Este PS irá fazer tudo para que Vitorino seja eleito. Irá acabar de vender-se. Não só o PS. Todos aqueles que, à semelhança de Freitas do Amaral, querendo permanecer na ribalta, só não renunciam à sua ideologia ao Domingo de manhã. Querem permanecer na ribalta, como se tivessem eternamente direito a ela, como se ela lhes tivesse sido prometida por Deus para sempre. Não hesitam em mentir à sua volta. São as rolhas da esquerda, que retiram todo o carácter que restava à esquerda. Fogem à menor dificuldade, sobretudo quando o pântano que criaram se prepara para os engolir. E é por isso que, mais uma vez, não há grandes novidades. Tudo continua a mesma coisa. Os oportunistas conseguem o que querem. Fora isso, há um repúblico pretensamente de esquerda no governo, o que já não é mau de todo. Pretensamente, porque esta é também pretensamente ainda a época da suspeita e da incerteza, o que é a mesma coisa.
A esquerda parece aceitar este jogo, que se consubstancia no tal centro, teorizado pelo afilhado do Marcelo Caetano, que toda a gente ouve doze horas depois da missa, sem questionar, como se tratasse do padre que os acalmou de manhã. Uma boa forma de acabar o dia, em paz. Há alguém que os compreende de manhã à noite. Alguém que tenta explicar as vantagens da fé e de comer fora à sexta e ao sábado. Fala para todos aqueles que renunciaram às ideias que englobavam também os outros, que nunca tiveram coragem de defenderem sozinhos uma ideia de comunidade. Fala também para aqueles que nunca tiveram uma ideia para nada. Fala para aqueles que trocaram tudo por um pouco mais de dinheiro e de reconhecimento dos outros, por um contrato de trabalho mais vantajoso, mas que sabem que nunca mereceram.
A esquerda parece sentir-se atraída por essa plêiade de oportunistas que só pensam em si próprios, que nunca arriscaram uma palavra ou uma ideia além do egoísmo silencioso por que pautam a sua existência no mundo. Permanecem em silêncio de forma calculada, olhando apenas os pratos da balança. Calculam o momento certo de saltarem fora ou dentro sem pensarem nunca na questão da ética e da justiça. São como ratos que abandonam um barco, apenas querem manter o emprego, acabar de pagar o empréstimo da casa e o carro, ter direito a férias, manter os filhos num colégio privado. Os outros que se lixem.
E talvez este seja o grande desafio da esquerda hoje, saber quem no seu seio tem uma utopia de esquerda. O caminho está a ser metodologicamente traçado para que no futuro não possa haver distinção entre partidos. E restará apenas a diferença de serem mais que um partido, que se vão alternando no poder. Partidos de alterne que se prostituem sem embaraço.
A esquerda jamais poderá ir por aí, por esse caminho que eles indicam com os olhos ternos e doces, com os braços estendidos, aos domingos. Não podemos cruzar os braços perante aqueles cuja única glória consiste em criar um abismo entre nós e um mundo mais justo. Para que existam pessoas que não se arrastam, para que não haja pessoas que seguem o vento em vez de seguirem o seu próprio caminho, é necessária mais um pouco de coragem. Mesmo que longo, difícil e cheio de obstáculos, o caminho a percorrer não é o mesmo caminho pantanoso que nos indicam na homilia. A utopia é aquela ideia clara que se levanta sempre que a tentam derrubar, é uma ideia que corre, grita, luta, expõe o seu sangue. Não podemos ser aqueles que se tornaram velhos sem terem uma história de coragem para contar aos jovens. Não podemos ter medo do abismo que nos rodeia, que nos cerca em dado momento. Sejamos loucos.

fernando

publicado por ... às 18:24
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9 comentários:
De Anónimo a 8 de Março de 2005 às 04:10
Já agora, aproveito para te esclarecer que não apoio a "esquerda" ou pelo menos nenhuma das suas manifestações partidárias. Tanto renego pois o dogmatismo e espírito rebanho do PCP como a postura "bem pensante", "politicamente correcta", "fashion" e "chique" do BE, para não falar no PS, que mais não faz do que seguir os ditames do grande capital e de manutenção do status quo. Não esqueçamos que tanto o Sócrates como o Santana já foram escolhidos há algum tempo pelo Clube de Bilderberg para darem a cara ( e talvez algo mais) na palhaçada eleitoral.
Simplesmente a direita consegue ser muito pior, na teoria e na prática... Karl Belial
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De Anónimo a 8 de Março de 2005 às 04:00
Quanto ao "Bochechas", embora eu não morra de amores por ele, este nome não é bem um insulto, é uma alcunha já bastante usada há muitos anos, mesmo por pessoas que até gostam dele e a usam carinhosamente. Se te informares sobre o peíodo do pós 25 de Abril e sobre um tal Frank Carlucci, logo verás o que eu quero dizer. Além disso, e foi ele mesmo que o disse, meteu "o socialismo na gaveta". Também quando houve disputas internas no PS nessa altura entre a ala direita e a ala esquerda, conquistou o partido como "ala esquerda moderada" e, logo de seguida, adoptou e pôs em prática as ideias da ala direita. Quanto ao PS estar à esquerda do PP, tens toda a razão (ou pelo menos assim espero), mas da maneira que o PP está, talvez só mesmo o PNR consiga estar mais á direita...Karl Belial
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De Anónimo a 6 de Março de 2005 às 14:27
Acresce dizer, e por lapso não o referi no comentário anterior (peço desculpa ao Fernando pelo abuso na utilização do espaço), que o tal de "Bochechas" que referes em tom irónico é apenas um dos homens que mais fez pela democracia portuguesa. Não que eu seja uma entusiasta da democracia, acho-a até plena de defeitos, ainda mais num país tão mal preparado para o exercício do pensamento e do livre arbítrio como Portugal. Mas a esse homem que quase insultas devemos uma parte importante - e positiva - da nossa história.Mente Despenteada
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De Anónimo a 6 de Março de 2005 às 14:24
Ser de esquerda ou de direita, como ser alto ou baixo, gordo ou magro, moreno ou branquela, resulta necessariamente de uma relativização. Não que eu seja o Einstein, e não que costume relativizar tudo. Mas neste caso, parece oportuno referir que o PS, não sendo exactamente um partido de esquerda (acho, de facto, que não é), está mais à esquerda que o PSD e o CDS. Logo, o país virou à esquerda efectivamente, a 20 de Fevereiro. Mas no meio (no centro) pode estar, à luz da sabedoria popular, a virtude. Resta-nos aguardar a chegada de melhores dias. Sofregamente mas sem desespero.Mente Despenteada
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De Anónimo a 6 de Março de 2005 às 07:38
De uma forma geral, este blog está muito bom, com análises pertinentes ao estado das coisas. Apenas um reparo: há muito, mas mesmo muito tempo que o PS não é de esquerda (se é que alguma vez o foi). O Bochechas sempre foi o homem de confiança da CIA...Karl Belial
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De Anónimo a 6 de Março de 2005 às 01:15
Resta dizer que tens a qualidade de escrita que me faz ter vontade de ler sempre mais. Um texto exemplarmente escrito este. Num país tristemente marcado pelo analfabetismo, é bom encontrar, um dia ou outro, uma ou outra pérola. Obrigada!Mente Despenteada
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De Anónimo a 6 de Março de 2005 às 01:10
Ouvi certo dia, não sei exactamente onde, que na paciência das pessoas acontece o mesmo que com as pastas de dentes: por mais que se esprema a embalagem, há sempre um bocadinho que fica no seu interior. Com as utopias dá-se o mesmo fenómeno. Elas erguem-se quando tudo à volta cai, e renascem das cinzas de outras esperanças. Concordo com a tua ideia de que, cada vez mais, a esquerda e a direita são mais do mesmo. Esbatem-se as diferenças, esgrimem-se os mesmos argumentos, decalcam-se as mesmas linhas de acção, e no fundo nada muda. Concordo que é preciso ter coragem para levar a bom porto este barco meio naufragado em que se transformou Portugal, em parte por culpa destes que agora regressam ao poder, mas não sem outra quota-parte de responsabilidade dos que agora lho entregam, e de outros, menores mas não menos ardilosos nesses esquemas e nessa gestão de interesses que denuncias.
Sabemos que haverá sempre os que se vendem, os que vendem até a mãe, por um pouco dessa visão de poder, que muitas vezes é apenas nomenclatura ilusória. Sabemos que haverá sempre os oportunistas que tentam subir às costas de alguém que os carregue e lhes inche o ego de méritos e competências que nunca conheceram. Mas sabemos também que, da mesma forma como o PSD precisa de Cavaco Silva como de pão para a boca nas próximas eleições presidenciais, também o PS precisa de um nome credível, e António Guterres surge cada vez menos conotado com a tarefa de salvação da Pátria! Esquece-se o povo que a Pátria não será salva por um homem, mesmo que muito bem preparado e intencionado, mas por todos nós, com massa cinzenta e capacidade crítica, com vontade e com atitude. Enquanto formos um povo que não investe em si mesmo, e que se volta para os bens materiais com a mesma sofreguidão com que alcançaria um copo de água depois de uma semana a vaguear pelo deserto, enquanto não percebermos que temos de investir em nós e dar ao País o empenho e a dedicação, o respeito e o trabalho que queremos que ele nos reconheça e devolva, teremos sempre políticos como os actuais, e pântanos mais ou menos iguais ao de que agora, enlameados até ao pescoço, tentamos sair. Vai demorar. Há que ter coragem, há que ter perseverança! De nada serve criticar por apenas criticar. Urge que todos dêem as mãos para procurarmos juntos o caminho que queremos trilhar no futuro. Porque quando o naufrágio se afigura iminente, mal será dos que, a bordo da mesma canoa, remarem em sentidos diversos…Mente Despenteada
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De Anónimo a 5 de Março de 2005 às 20:52
- Já anda aì um dizer que afinal os impostos vão subir!!!
- Prometem uma coisa e depois fazem outra!!!!
- É preciso que o Pres. da República daqui a 2/3 anos os ter no seu lugar (quero dizer bem pretos) para dissolver a AR como o Sampaio fez!!!! Mas como a maçonaria é que manda nisto tudo, acho impossíval!!!!!!!

-REALMENTE ESTE TRISTE PAÌS É INGOVERNÁVEL!!!!Gomez
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De Anónimo a 5 de Março de 2005 às 19:28
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